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Meu relato pessoal como mediadora em um projeto educacional

Dedico este espaço para relatar minha experiência como mediadora de grupos de crianças neurodivergentes, abrangendo diagnósticos como Transtorno do Espectro Autista, TDAH, TOD e Dislexia, com idades entre 3 e 11 anos, em um grupo entre 5 a 7 crianças. Minha atuação ocorreu entre os anos de 2024 e 2025, no Projeto Vincular, desenvolvido pelo Instituto da Primeira Infância (IPREDE). Fundada em 1986 em Fortaleza, Ceará, a instituição serviu como base para esse trabalho de mediação no contexto educacional e de inclusão, onde pude acompanhar de perto o desenvolvimento e as particularidades de cada criança.

Rebeca Ramos

Trajetória e Contexto Inicial

A trajetória no Projeto Vincular teve início em 2024, abrangendo a passagem por diferentes espaços como fotografia, ateliê, teatro, desenho e música. Cada ambiente apresentou propostas distintas voltadas ao desenvolvimento das potencialidades infantis. Entre 2024 e 2025, o trabalho incluiu a participação em saídas culturais para museus em Fortaleza, acompanhando grupos para promover o acesso à cultura e à arte.

O foco central deste relato concentra-se na mediação realizada em duas frentes específicas: a prática de judô e as sessões de contação de histórias.

Mediação no Contexto do Judô e Desenvolvimento Sensoriomotor

Durante o acompanhamento de um grupo de crianças em uma turma nova, observou-se um perfil com necessidade de movimentação e estímulos sensoriais. O início do processo revelou interações complexas, onde o contacto físico ocorria de forma desordenada.

As principais barreiras identificadas incluíram comportamentos de bater, chutar e empurrar os colegas. Essas ações frequentemente ocorriam em momentos de desregulação emocional, crises ou diante da imposição de limites e negativas. O desafio exigiu uma compreensão profunda sobre neurodiversidade e o contexto social dos envolvidos para converter o comportamento impulsivo em participação ativa.

A intervenção baseou-se na observação das habilidades individuais e coletivas. Foram realizados testes com diversos recursos para identificar os interesses específicos de cada criança. O apoio dos familiares foi fundamental para compreender as preferências de cada participante. Com o tempo, a dinâmica transformou-se: o grupo, que antes preferia o isolamento e apresentava conflitos pela posse de objetos, passou a interagir de forma cooperativa. Houve uma redução significativa em agressões físicas e verbais, dando lugar ao respeito mútuo, à espera da vez e ao compartilhamento.

Adaptação e Mediação na Contação de Histórias

A experiência na sala de contação de histórias envolveu um período de transição e adaptação para as crianças e para a equipa de mediação. O processo de acolhimento de novos integrantes exigiu flexibilidade para lidar com o tempo de cada criança neurodivergente ao se deparar com novos ambientes e figuras de referência.

O principal obstáculo residiu na quebra de rotina e na resistência inicial de algumas crianças em relação ao objeto livro. A adaptação ao cronograma de atividades exigiu um manejo cuidadoso, pois a chegada ao ambiente novo muitas vezes gerava episódios de desregulação emocional e comportamental.

A estratégia adotada priorizou a construção de vínculos de confiança e a flexibilidade no cronograma. Em vez de suprimir atividades, ajustou-se o momento de iniciá-las conforme o estado emocional e cognitivo do grupo. O acolhimento e o respeito às particularidades permitiram que as crianças, tanto verbais quanto não verbais, passassem a seguir a rotina e a participar ativamente das narrativas, assumindo papéis de personagens e interagindo com as histórias propostas.

Inclusão em Espaços Culturais e Patrimoniais

A inclusão de crianças neurodivergentes nos equipamentos culturais de Fortaleza é um pilar essencial para a construção da identidade e autonomia. A mediação em visitas a museus e centros culturais permitiu que as crianças ocupassem espaços públicos como cidadãs e artistas.

Nos passeios, o conhecimento teórico sobre fotografia e artes visuais transformou-se em vivência prática. As crianças exploraram os museus, interagiram com as obras e socializaram com colegas de diferentes grupos. Essa experiência proporcionou aos familiares uma mudança de perspectiva, permitindo observar as capacidades de aprendizagem e a liberdade de expressão. O lazer e o tempo de qualidade foram reafirmados como direitos fundamentais para o desenvolvimento da infância e para o fortalecimento do sentimento de pertença à cidade.

Considerações sobre o Brincar e a Psicologia

O processo de mediação demonstrou que o brincar livre é essencial para o desenvolvimento da criatividade e da capacidade imaginativa. Observou-se que o excesso de exposição a ecrãs pode limitar o desenvolvimento cognitivo e motor devido à busca por recompensas rápidas.

A evolução das crianças, que inicialmente ocupavam o mesmo espaço sem interagir e passaram a brincar juntas de forma colaborativa, evidencia que a inteligência emocional está intrinsecamente ligada à habilidade de socialização. O trabalho conjunto entre mediadores, professores e famílias permitiu um olhar que transcende diagnósticos, focando na potencialidade e no respeito à singularidade de cada criança.

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